terça-feira, março 22, 2011

Paula Wenke: O Budista que salvou a fé de uma Cristã

Obama por essas bandas dizendo que SE o Brasil é o país do futuro, o futuro já chegou. E também que a América dará forças para o nosso crescimento... Colegas de Maria Bethania defendendo o seu blog... PMDB insatisfeito com o número de cargos destinados ao partido, e eu aqui vou ficando com uma preguiça continental.

Ok, nem tanto assim... É sábado à tarde, acabo minhas aulas de teatro onde pude recobrar um pouco as esperanças, por conta do contato com crianças e suas espontaneidades, mesmo que através da arte das máscaras.

Ligo para a minha irmã Ana Luiza, recém estabelecida na Cidade Maravilhosa e combino uma praia. Se estivesse até chovendo ela iria sorrindo. Carioca, aos cinco foi para Brasília, mudou-se para São Paulo, e só agora, trinta anos depois, retorna ao Balneário.

Já no fim da jornada praiana, depois de muito Mate Leão e Biscoito Globo, chega Alice, amiga de Aninha de outros carnavais. A morena elegante era agente financeira, trabalhava em escritórios. Após perder o emprego, resolve ir para “areia” vender suas criações: belíssimas bijous feitas de aço cirúrgico. Peças que tem o efeito e a durabilidade da prata, mas com preços infinitamente mais leves. Ela aceita Visa. Lógico que me esbaldo aos baldes.

Papo vai, papo vem, entre o ajuste de comprimento de um colar e outro, buscando os tamanhos certos dos meus futuros anéis, Alice responde à minha irmã sobre o atual namorado: “Tô meio de saco cheio de algumas coisas, mas ele tem qualidades. Só o fato de aceitar que eu NÃO queira me casar e NÃO ter filhos ...” Pensei que em menos de dois meses já era a terceira vez que escutava o mesmo discurso feminino despretensioso.

Ela desenvolve: “Meu primeiro marido sofria de disritmia cerebral, não cuidada pela mãe no tempo devido. Descobri que em decorrência disso, tornava-se violento em situações de adversidade. Depois de anos de convivência, eu já não agüentava mais. Tivemos uma separação surpreendentemente tranqüila. Algum tempo depois, senti que tentou uma reaproximação. Não estava disposta. Chegou a me mandar um telegrama que dizia: “Seja feliz.” No dia seguinte, suicidou-se com um tiro na boca. No velório, aparece uma ex-namoradinha cuja relação havia sido rompida por meu ex-marido no sábado anterior ao ato derradeiro. Ela era parecidíssima comigo.”

Na seqüência, ela fala sobre o segundo casamento: “Eram mentiras e traições em alternâncias alucinantes. No primeiro momento perdoei porque ele afirmava ser culpa minha. Não era mulher suficiente para ele.

Aventurei-me em sex shops e leitura intensa de inúmeras versões do Kama Sutra. Quando descobri fotos pornôs do meu marido num site de perversões, aí foi o limite, mais uma separação." Todas essas narrativas me faziam compreender perfeitamente o trauma matrimonial.

Mais tarde, cansada de praia e satisfeita com a Picanha na Chapa do Bar Garota de Ipanema, decido dormir cedo. Sábado é o melhor dia para NÃO sair à noite no Rio de Janeiro.

Acordo no domingo com o telefonema de Daniel, um amigo poeta que conheci há uns quatro anos. Só nos vimos uma vez e sempre conversamos longamente desde então. Talvez eu seja sua única conexão com o universo da militância poética. Ele não freqüenta recitais, e suas jornadas são absolutamente burocráticas. Onde mora também não é uma região de artistas. É um homem belíssimo, advogado, bem nascido. Como nem tudo é perfeito, tem problemas com certos excessos. Seu fraco é mesa de bar. Nesta conversa dominical, ele diz infinitas vezes que não quer mais namorar. Conta algumas histórias de mulheres lindas e insensíveis que não compreendiam seus versos, ou outras aproveitadoras, pretendentes de um provedor e não exatamente de um homem. Diz: “Poeta ama demais, já sofri o suficiente por essa vida. Seguirei com uma vida monástica” Também traz pra si a responsabilidade dos seus fracassos amorosos. Achei digno. Tais excessos tornam as relações não saudáveis. Pergunto o que ele pretende fazer nos finais de semana quando seus pais não estiverem mais presentes. Ele titubeia e não responde.

Ligo para Ana Luiza e lá vamos nós para mais um dia de praia. O dia está nublado, mas para ela o que importa é ver o mar, privação de tantos anos.

Atravessando o calçadão, na altura da Vinícius, avisto um amigo querido caminhando solitário. Troca de acenos rápidos, mas suficientes para ativar a memória. Marcelo é um escritor de mão cheia. Dirigi inúmeras vezes seus textos teatrais. Passei dois anos, entre 2000 e 2002 apaixonada por ele. Amor platônico. Acabou casando com uma morena gostosérrima, teve um filho lindo. Separaram-se já faz algum tempo. Dizia ele, que sua esposa não o estimulava muito com a escrita, e que pouco entendia sua linguagem tão influenciada por Ionesco e outros absurdistas. Há uns dois anos lançou um livro onde deixa claro sua total descrença no amor.

Tantas coincidências somadas ao meu estado de espírito melancólico acabam me deixando intrigada. O que está acontecendo? Que movimento é esse de falta de fé nas relações?

Por associação lembrei-me da minha crise de fé religiosa atual, provocada justamente por um homem-bíblia, que para mim está mais para homem-bomba diante de suas ações detonadoras. Tenho medo de certos crentes convertidos depois da maturidade. Não aprenderam o amor cristão durante sua formação de caráter. Aprontam mil e umas e depois vem uma suposta mudança radical de comportamento em decorrência dos preceitos de uma nova religião adquirida. Até que ponto o egoísmo, a arrogância já não estariam irremediavelmente arraigados? De que adianta conhecer os versículos de cor, e não saber transpor seus ensinamentos para as ações cotidianas? Dominar a Palavra para manipulá-la a seu favor, justificando assim qualquer ato? Acabo me lembrando daqueles advogados que estudam as leis para saber onde estão as brechas.

Pronto, resolvido: depois de anos de ausência, pego carona com minha irmã, e vou à missa das sete e meia. Igreja Nossa Senhora da Paz. Padre Jorjão é quem conduz a Palavra. Chego atrasada, na hora do Pai Nosso cantado. Não consigo balbuciar uma sílaba. A emoção toma conta diante de tanta gente reunida em nome do bem. Que aconchego quando os fiéis sorridentes se aproximam desejando uns aos outros, a Paz de Cristo. Minhas questões sobre o culto aos santos e imagens, virgindade de Maria ficam pequenas diante do que eu sinto quando estou ali. Nenhuma Igreja é mesmo perfeita. Mas ali há mais gente falando de Deus do que do Diabo. Ali ha famílias inteiras que conseguem perseverar no amor, porque cultivam desde a mais tenra infância valores calcados em filosofia de vida consistente. Resultado: comportamentos mais virtuosos, comprometidos, tolerantes.

Missa terminada, logo na saída, avisto João, outro amigo querido. É guitarrista e Budista. O que estaria fazendo ali, na porta de uma Igreja Católica? João sempre foi muito discreto, bom papo. Em três anos que eu o conheço, nunca o vi com mulher alguma. Criterioso, talvez. Eis que surge, vinda da Igreja, uma moça simpática que vai correndo beijar carinhosamente João. Trocam olhares apaixonados e seguem para um barzinho na Joana Angélica onde teria música ao vivo. Eles, cordialmente, nos convidam a ir com eles antes de partir. Aceitamos prontamente. Tudo é novidade para Ana Carioca Luiza. Termino o meu fim de semana com o violão e voz de João seguindo a letra: “Você me dá sorte, meu amor...” E eu, entre Catia e o palco de João, percebo as piscadelas do seu namorado, provocando em Catia, também personagem de histórias com filhos e separações, um lindo sorriso de mulher.... que nunca perdeu a fé.

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